O profissional da Atenção Primária à Saúde tem um papel central no reconhecimento precoce das dificuldades de comunicação e interação social, atuando como porta de entrada do cuidado. A partir da escuta qualificada, da observação clínica e do acompanhamento longitudinal da criança, a APS pode identificar sinais persistentes, orientar a família e articular o diálogo com a escola, contribuindo para evitar interpretações equivocadas ou encaminhamentos inadequados.
Diante da suspeita de TEA, cabe então à APS realizar a avaliação clínica ampliada da criança, considerando seu contexto familiar, escolar e o histórico de desenvolvimento. Antes de direcionar a criança para serviços especializados, é fundamental investigar outras condições de saúde que também podem interferir na comunicação e na interação social.
Nesse sentido, devem ser considerados aspectos como possíveis alterações auditivas ou visuais, histórico de consultas de puericultura, condições do nascimento, como índice de Apgar e intercorrências neonatais, além da avaliação do crescimento e do desenvolvimento neuropsicomotor da criança. Essas informações ajudam a identificar ou excluir outras causas de atraso de linguagem ou dificuldades comunicativas, como perda auditiva ou alterações do desenvolvimento, que podem produzir manifestações semelhantes às observadas no TEA.
Após essa avaliação inicial e quando houver indicação clínica, a criança poderá ser encaminhada para serviços especializados, como Fonoaudiologia, Neuropediatria, Psiquiatria infantil ou serviços da Rede de Atenção Psicossocial. Esse encaminhamento deve ser realizado com critério e responsabilidade, garantindo que a criança seja direcionada ao ponto adequado da rede de cuidado.
Além disso, a APS atua no acompanhamento longitudinal da criança e da família, fortalecendo o vínculo, apoiando o cuidado compartilhado e articulando ações intersetoriais entre saúde e educação. O acompanhamento deve ser multiprofissional, considerando que o desenvolvimento da comunicação e da interação social depende de intervenções integradas e do envolvimento da família e da escola.
Nesse cuidado articulado, profissionais especializados podem lançar mão de estratégias de Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA), como o uso de gestos, expressões faciais, símbolos ou figuras, com o objetivo de favorecer a comunicação funcional e a interação social da criança. Essas estratégias não substituem a fala, mas podem complementá-la ou oferecer outros meios de expressão, especialmente quando há dificuldades importantes de linguagem.
Recursos como língua de sinais e gestos, pistas visuais e sistemas baseados em figuras, como o Sistema de Comunicação por Trocas de Figuras (PECS), podem contribuir para estimular a intenção comunicativa e ampliar a participação da criança nos diferentes ambientes. Cabe à APS favorecer o acesso a essas intervenções por meio da articulação com a rede de atenção e da orientação à família e à escola, garantindo que essas estratégias sejam conduzidas por profissionais capacitados.
Ao fortalecer essa articulação em rede, a Atenção Primária contribui para a identificação precoce das necessidades da criança, para o acesso oportuno às intervenções adequadas e para a construção de um cuidado contínuo, humanizado e centrado no desenvolvimento integral.
Referências:
BORDINI, D. et al. School Referrals of Children and Adolescents to CAPSi – the Burden of Incorrect Referrals. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 34, n. 4, p. 493–496, dez. 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.rbp.2012.05.007. Acesso em 12 fev. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Linha de Cuidado para a Atenção às Pessoas com Transtornos do Espectro do Autismo e suas Famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/linha_cuidado_atencao_pessoas_transtorno.pdf. Acesso em: 12 fev. 2026.
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